Domingo, 27 de Maio de 2007

Texto 5

O Idealismo
 
  
53. Ao Realismo opõe-se o Idealismo.
      Sustenta que não há coisas reais fora do pensamento.
      Se as houver, são incognoscíveis (não podem ser conhecidas).
 
54. Fruto e modelo da atmosfera cultural da Idade Moderna,
      o Idealismo hipervaloriza o sujeito do Conhecimento.
      Nada haveria independente da consciência.
 
55. George Berkeley (1685-1753)
      resumiu esta postura na fórmula seguinte:
      “Esse est percipi” (Ser equivale a ser percebido).
      Só é real aquilo que for efectivamente percebido por nós.
 
56. O Idealismo preconiza o primado do eu sobre o não-eu.
      Só podemos conhecer as nossas próprias ideias.
      Elas são a realidade propriamente dita.
 
57. O real e o pensado identificam-se.
      Tudo o que é real é representação ou ideia.
      O sujeito cognoscente torna-se fonte de realidade.
 
58. Só prevalece o que for representado por nós.
      Não há lugar para o pré-representado
      ou para o não-representado.
 
59. A independência do Ser deixa de ter qualquer sentido.
      Não há nenhuma Verdade Ontológica acima ou fora de nós.
 
60. Esbate-se de igual modo a Verdade Gnoseológica,
      enquanto conformidade entre o pensamento e o objecto,
      pois a realidade passa a ser propriedade privada do eu.
 
61. O pólo objectivo da relação cognitiva (S → O)
      dissolve-se precisamente porque o objecto deixa de ser
      o totalmente "outro", o absolutamente diferente do pólo subjectivo.
 
62. Não há nenhum objecto sem sujeito ou exterior ao sujeito.
      Já nem sequer reconhecemos um par de opostos.
      Todo o objecto é pelo sujeito e no sujeito.
 
63. O subjectivo e o inter-subjectivo tudo anexam a si.
      O não-subjectivo, o supra-subjectivo, o extra-subjectivo
      são coisas do passado. Cessaram de existir.
 
64. "O que é real é racional e o que é racional é real",
      sentenciou Hegel (1770-1831). Está tudo dito.
 
65. Fora dos muros das nossas representações,
      não há nada. Não deve haver mais nada.
 
66. Para algo passar a existir, precisa do aval do sujeito.
      As coisas nada são em si mesmas. São por mim.
      O objecto, enquanto tal, não tem consistência.
       
67. Para o advento do Idealismo, contribuiu
      o critério da evidência de Descartes,
      na primeira metade do século XVII.
 
68. Que o não representado seja considerado como uma incógnita,
      é de bom senso. Que seja encarado como algo sem sentido
      ou até como um não-ser, constitui uma arbitrariedade.
 
69. A realidade exterior torna-se refém das nossas representações.
      A Ontologia sujeita-se à Gnoseologia, o ser ao conhecer.
     
70. As coisas são na medida em que são conhecidas.
      O que for desconhecido, e apenas por sê-lo,
      deixa de ter direito à existência.
 
71. Só existe aquilo que conheço.
      Nada pode existir sem o meu conhecimento.
      Algo passa a existir quando o conheço e porque o conheço.
 
72. Ergue-se um antropocentrismo narcisista
      em matéria de Teoria do Conhecimento. O Século XVIII
      entroniza o eu pensante como árbitro do que é e do que não é.
 
73. O homem volta a ser a medida de todas as coisas. O Ser em si
      reduz-se ao ser para mim ou, quando muito, ao ser para nós.
 
74. A Época Contemporânea acentua os privilégios do mega-sujeito.
      Espalha-se a tendência de gradualmente preterir a Metafísica
      em prol de uma Filosofia da Linguagem.
 
75. O discurso deixa de estar subordinado à realidade.
      Substitui-a. O verbo do homem é doravante a casa do Ser.
      Perverte-se a Douta Ignorância. "O que sei faz agora a realidade".
 
76. Dantes, dava-se um nome às coisas.
      Doravante, os nomes é que fazem as coisas.
      Instala-se um Nominalismo. Toda a ordem é invertida.
 
77. O Ser não é mais do que uma palavra, um som.
      O termo é que passa a ter a primazia sobre o conceito.
      A existência precede a essência e o conhecer antepõe-se ao ser.
publicado por Marc Calicis às 17:40
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Marc Calicis

Licenciado em Filosofia pela U.C.P.

Vila do Conde

Ano Lectivo de 2009 - 2010