Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

Texto 11

O Termo
 
  
147. A fim de viabilizar a comunicação entre si, os homens
        inventaram termos convencionais que expressam conceitos.
 
148. O termo faz as vezes do conceito.
        Representa-o. É a sua face visível.
 
149. Se alguém disser alguma coisa numa lingua desconhecida,
        não poderemos decifrar-lhe o significado porque os termos
        e o código linguístico utilizados são diferentes dos nossos.
 
150. O que porém não tem sentido para nós
        pode perfeitamente ter sentido em si mesmo.
        Não digamos: “Não percebo. Logo, não tem sentido”.
 
151. A capacidade de se exprimir por palavras é inata no homem.
        Os idiomas, pelo contrário, foram criados por ele
        e estão historicamente circunscritos.
 
152. Os conceitos universais referem-se a realidades,
        sejam elas do conhecimento do homem comum (ex: “pedra”),
        ou conhecidas apenas por alguns e de um modo invulgar (ex: "anjo").
 
153. Guardemo-nos de confundi-los com os que são fruto da imaginação.
        O conceito de “sereia” não tem referente fora do espírito.
        É tão particular como a cultura que o produziu.
        Nada tem de objectivo e universal.
 
154. “Branco, white, blanc” são três termos que representam
        um mesmo conceito universal: o de brancura.
 
155. Não depende do homem a existência de objectos brancos,
        mas apenas o nome que dá às coisas que conhece.
 
156. Minerais, vegetais, animais e homens não escolheram ser o que são.
        A essência dos seres é imposta e nenhum deles a pode alterar.
 
157. Ter fome é comum a todos os homens; faz parte da sua condição.
        É uma lei da Natureza, pelo que o conceito de fome
        a nenhum de nós é estranho.
        Sabemos o que ela é, mas o modo de a designar
        varia consoante o povo, a região e a época.
 
158. O nome que damos às coisas, a "etiqueta" que lhes aplicamos,
        em nada interfere na natureza dessas mesmas coisas.
       
159. Uma doença grave não deixa de o ser
        se a tivermos por uma bagatela e a apelidarmos como tal.
        Um erro no diagnóstico não modifica o estado clínico do paciente.
 
160. Ao verbo humano não obedece a essência das coisas.
        Chamar alguma realidade como ela não é, em nada a modifica.
 
161. Primeiro, as coisas são.
        A realidade precede a palavra do homem.
        Com o tempo, diversos nomes foram-lhes sendo atribuídos.
 
162. Os Romanos, há dois mil anos, chamavam "somnus"
        àquilo que hoje designamos por sono. Continua porém a ser o que era.
 
163. Mudaram os tempos, mudaram os termos,
        as roupagens com que nós revestimos as coisas,
        mas estas são o que são, desde que o mundo é mundo.
 
164. Platão (427-347 A.C.) utilizou o termo “andreia” para designar a coragem.
        Mas a descrição que dela nos fez aproveita a qualquer geração,
        pois as essências não sofrem a erosão do tempo.
 
165. Finalmente, os conceitos não são, em si mesmos, nem verdadeiros nem falsos,
        porque não encerram nenhuma afirmação. Não é porém indiferente
        terem ou não um determinado referente na realidade.
publicado por Marc Calicis às 00:30
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Marc Calicis

Licenciado em Filosofia pela U.C.P.

Vila do Conde

Ano Lectivo de 2009 - 2010