Domingo, 20 de Maio de 2007

Texto 12

A Axiologia
 
  
166. Desde os legisladores das antigas “Pólis” dos séculos VIIº e VIº A.C.,
        os pensadores notabilizaram-se pelo cultivo dos Saberes Práxicos.
        Importa circunscrever a área a que estes saberes pertencem.
 
167. Entre os Sete Sábios da Grécia, homens de reconhecida virtude,
        conta-se o próprio Tales de Mileto, tido como o primeiro filósofo.
 
168. A Ética é um ramo da Filosofia que se propõe determinar a finalidade
        da vida do homem e os meios de a alcançar.
        Como esculpir o seu destino? 
 
169. Trata-se de uma disciplina de carácter normativo,
        tal como o são a Lógica e a Estética,
        em seus domínios próprios.
 
170. Assentando numa prévia definição do Bem,
        e propondo um sistema coerente de regras imperativas da acção,
        a Ética pressupõe necessariamente uma Axiologia.
 
171. A Axiologia tem por objecto o estudo dos Valores.
        Trata nomeadamente da sua natureza,
        heterogeneidade, polaridade
        e hierarquização.
 
172. As coisas não se limitam a ser ou a existir. Também valem.
        Julgamo-las em função de valores de índole diversa.
        Decorre da componente espiritual do homem
        emitir juízos apreciativos.
 
173. Não é um assunto de somenos importância
        o de escolher as normas da nossa conduta pessoal.
        Saibamos discernir trigo e joio para agirmos em conformidade.
 
174. Não nos suceda ter que proferir um dia o verso do ilustre poeta:
        “Saiba morrer quem viver não soube” (Bocage, 1765-1805).
 
175. O livre arbítrio é a capacidade que o homem tem de decidir livremente.
        O poder de optar é a raíz da responsabilidade e, por conseguinte,
        da culpabilidade ou do mérito de cada um.
 
176. Três são as faculdades do nosso espírito: memória, inteligência e vontade.
        Recomenda a prudência que não invertamos esta ordem natural.
 
177. A inteligência precisa da memória
        que lhe fornece a matéria-prima para o seu exercício,
        e nada mais funesto do que uma vontade privada do leme da inteligência.
        Querer primeiro e reflectir depois causa dissabores e por vezes danos irreversíveis.
 
178. A primeira assemelha-se a um cofre interior,
        a segunda a uma bússola e a terceira a um motor.
        Outra metáfora: um livro, uma lâmpada e uma alavanca.
 
179. Se a vontade desempenha, na conduta do homem, um papel preponderante,
        cabe à inteligência orientá-la. Não é (não deve ser) sem motivo
        que pretendemos alguma coisa em vez de outra.
 
180. O livre arbítrio, dom inato, comum a todos os homens,
        não garante, por si só, a plena autonomia moral.
        Esta exige o concurso da virtude.
 
181. Possuir auto-domínio suficiente para, em qualquer circunstância,
        manter-se senhor de si; conservar o espírito livre de influências estranhas
        (as inclinações do corpo, as pressões do nosso meio social, etc);
        fundamentar a acção no dever; eis a autonomia moral.
 
182. Não se confunda autonomia moral com arbitrariedade.
        Ter em si mesmo o princípio do seu agir não significa
        fazer o que nos apetece, procedendo irracionalmente.
 
183. Ceder ao capricho momentâneo não é autonomia,
        mas anomia (ausência de lei).
 
184. Também não significa recusar a observância de princípios de conduta
        universalmente válidos. Um exemplo: sendo a vida um bem precioso,
        deve ser tida como tal, respeitada, estimada e protegida.
 
185. Alguns sustentam que ser livre significa nunca se comprometer com nada.
        Contrair uma obrigação, ser fiel a determinadas regras,
        pode e deve ser um acto livre.
 
186. O paciente que cumpre as prescrições do seu médico, fá-lo por vontade própria.
        A liberdade é portanto compatível com actos de obediência consciente.
 
187. A heteronomia moral consiste em receber passivamente de outrem
        as regras que nos governam, ou em estar sujeito a forças
        que escapam à nossa vontade livre e racional.
 
188. Depender de um vício a ponto de perder completamente o controlo dos seus actos,
        ter que entregar à força os seus haveres a uma quadrilha de assaltantes,
        são dois exemplos de heteronomia moral.
 
189. Como definir o destino? Tudo aquilo que nos acontece
        sem o contributo da nossa vontade. Não escolhemos
        o século em que nascemos nem se hoje vai chover.
 
190. Podemos compará-lo a uma mão invisível que imprime guinadas inesperadas
        ao volante da nossa vida, alterando num ápice o curso dos acontecimentos.
        Temerário e ingénuo quem disser com jactância "estar tudo sob controlo".
 
191. Alguns acusam-no injustamente.
        Os nossos erros não são imputáveis ao destino.
 
192. Como sentencia um velho ditado: "Se caíres a um poço,
        a Providência não é obrigada a ir lá buscar-te". Caíste nalgum poço?
        Talvez andasses distraído. Não amaldiçoes o destino, mas o teu descuido.
 
193. A virtude consiste numa predisposição habitual na prática do bem.
        Trata-se de uma força interior progressivamente adquirida,
        fruto do exercício continuado de actos meritórios.
 
194. Resulta do esforço no aperfeiçoamento de si mesmo.
        "A prática torna mestre", observa outro provérbio.
 
195. Cada virtude particular admite uma escala graduada.
        Nem todos somos igualmente pacientes
        e há graus de generosidade.
 
196. O Bem consiste na realização integral das potencialidades
        de um ser, segundo o seu fim na ordem do Universo.
       
197. A posse de quatro virtudes essenciais fazem o homem completo,
        segundo Platão: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.
publicado por Marc Calicis às 18:11
link do post | favorito

Marc Calicis

Licenciado em Filosofia pela U.C.P.

Vila do Conde

Ano Lectivo de 2009 - 2010