Terça-feira, 15 de Maio de 2007

Texto 17

A arte de escolher
  
242. Que comentário tecer relativamente à doutrina moral de Sócrates,
        que viria a ser conhecida como Intelectualismo Ético?
 
243. A crítica socrática, alusiva à argumentação sofística, é procedente.
        A existência de valores extrínsecos não significa
        a inexistência de valores intrínsecos.
 
244. Se bastasse conhecer o bem para segui-lo, o homem deixaria de ser livre.
        A bem dizer, nem sequer haveria nele verdadeira opção.
 
245. Nunca nos sucedeu porventura termos prévio conhecimento do nosso dever
        e não cumprí-lo? A ter Sócrates razão, ninguém teria culpa de nada,
        nem de resto qualquer mérito por ter agido bem.
 
246. Que a ignorância seja uma das causas do mal, é ponto assente.
        É certo que, por vezes, não sondamos bem a extensão
        e a profundidade do mal ou do bem que fazemos.
 
247. Daí não se conclua porém que não estamos conscientes
        quando nos ocorre proceder injustamente.
 
248. Somos os autores de acções voluntárias e lúcidas
        cuja responsabilidade nos incumbe.
 
249. Sou o pai dos meus actos. Mesmo que eu lhes diga:
        "Eu não tenho nada a ver convosco, nem sei quem sois",
        eles retorquem: "Mas nós reconhecemos-te e pertencemos-te".
 
250. A virtude não brota só do saber.
        Radica também na boa vontade e exige trabalho.
 
251. Que necessidade teríamos de leis, se fossemos bons por natureza?
        Se existisse um homem naturalmente justo, bom de per si,
        não poderia ser moralmente corrompido.
 
252. Somos corruptíveis porque já temos, constitutivamente, algo a ver com a corrupção.
        A concepção optimista ou angélica do homem peca por ingenuidade.
 
253. Poderá então um homem conhecer o bem, renegá-lo conscientemente
        e obstinadamente optar pelo mal? A resposta é sim.
 
254. "Assim como fizeres, assim acharás", lembra um antigo adágio.
        Cada qual recolherá exactamente o que tiver semeado.
        Todos seremos responsáveis pelo que fomos
        e pelo que nós não quisemos ser.
 
255. Poder-se-ia gravar na pedra fria de muitas sepulturas:
        Aqui jaz um "poderia ter sido". Não foi porque... Não quis.
publicado por Marc Calicis às 16:22
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Marc Calicis

Licenciado em Filosofia pela U.C.P.

Vila do Conde

Ano Lectivo de 2009 - 2010