Domingo, 13 de Maio de 2007

Texto 19

Nada em excesso
  
268. A ética aristotélica consiste na busca da felicidade,
        tida como o Bem supremo, por meio da virtude.
        Com efeito, todos procuramos ser felizes.
 
269. A essa filosofia moral dá-se o nome de Eudemonismo
        (de uma palavra grega que significa felicidade).
 
270. O homem usufrui, em parceria com a flora, da vida vegetal.
        Nasce, cresce e morre; alimenta-se e reproduz-se,
        de um modo análogo ao que sucede às plantas.
 
271. Goza além disso de sensibilidade e de mobilidade,
       que caracterizam a fauna. Só ele todavia possui a vida racional.
 
272. O homem é assim um resumo ou um compêndio do Universo,
        um microcosmos – o Cosmos em miniatura – dotado de liberdade.
 
273. O bem de um ser resulta do cabal desempenho de todas as suas funções.
        O homem, essa excepção no conjunto do cosmos, acedendo
        à vida contemplativa, consegue transpor os rígidos limites
        impostos pelo determinismo da Natureza.
 
274. Uma virtude ética é sempre um hábito e define-se pelo justo meio-termo.
        O ditado segundo o qual "a virtude está no meio" remonta a Aristóteles.
 
275. Um exemplo: a coragem encontra-se na equidistância de dois extremos:
        a cobardia (vício por defeito) e a temeridade (vício por excesso).
        Há pois uma medida certa em todas as coisas.
 
276. Poderia alguém objectar que essa moderação assemelhar-se-ia
        à mediocridade, pois não seria nem carne nem peixe, como diria o povo.
 
277. Aristóteles adverte: o meio-termo do ponto de vista da coisa
        é o máximo do ponto de vista do bem. Que adiantaria a um homem
        possuir calçado de medida 45 se apenas calçar 40?
 
278. O meio-termo é estritamente individual.
        O que para determinada pessoa será equilibrado, poderá não sê-lo para outra.
        As mesmas catorze horas diárias de sono poderão convir a um recém-nascido,
        mas serão excessivas para um adulto saudável.
 
279. Diremos de alguém que terá sido prudente, fiel ou corajoso na sua vida,
        não por tê-lo sido uma ou duas vezes, mas por tê-lo sido regularmente.
 
280. Dir-se-á o mesmo do vício: o ter alguém ficado embriagado
        numa determinada ocasião não faz dele um alcoólico.
 
281. "O hábito é uma segunda natureza". Quando um costume em nós se consolidou,
        adquire com o tempo raízes tão profundas que já não imaginamos
        poder viver de uma maneira diferente.
 
282. As virtudes dianoéticas são dons inatos. Enquanto faculdades naturais
        do espírito, não se lhes aplica o imperativo do meio-termo.
 
283. Contrariamente às virtudes éticas,
        estas só beneficiariam com eventuais excessos.
 
284. Efectivamente, se alguém possuir talento para a música ou para as letras,
        um apurado espírito de observação ou uma memória excepcional,
        por exemplo, quanto mais apurado fosse esse dom, melhor.
  
        Eclode a Civilização Greco-Romana.
        Afloremos alguns dos seus ingredientes.
publicado por Marc Calicis às 18:01
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Marc Calicis

Licenciado em Filosofia pela U.C.P.

Vila do Conde

Ano Lectivo de 2009 - 2010