Sexta-feira, 11 de Maio de 2007

Texto 21

O Juízo e a Proposição
  
301. O juízo é o acto pelo qual a razão estabelece uma relação
        entre dois ou mais conceitos, a fim de afirmar
        ou negar a sua conveniência.
       
302. Estejamos de sobreaviso quanto à falibilidade da razão:
        contrariamente ao conceito, todo o juízo é verdadeiro ou falso.
 
303. Assim como exprimimos um conceito por meio de um termo,
        um juízo expressa-se verbalmente pelo intermédio de uma proposição.
        Esta é a exteriorização de um juízo. Exemplo: “Alguns A são B".
 
304. Um juízo é uma afirmação que se forma no âmago da nossa mente.
        É uma realidade interior, de natureza lógica.
 
305. O que ocorre no nosso espírito é como um livro no qual só nós podemos ler.
        Se não dissermos aos outros aquilo que pensamos,
        dificilmente o poderão adivinhar.
 
306. Damos a conhecer os nossos juízos por meio de proposições,
        sem as quais aqueles permaneceriam ocultos aos olhos dos demais.
        As proposições revelam os nossos sentimentos e pensamentos,
        tornando assim manifesto o que era inacessível aos sentidos.
 
307. O acto de julgar é próprio de um ser pensante e livre.
        Constitui uma prerrogativa mas também uma tremenda responsabilidade.
 
308. "Sim" e "não" são as palavras mais fáceis de pronunciar
        e as que mais reflexão exigem. Sejamos lentos em julgar.
        São necessários dois anos para aprender a falar
        e uma vida inteira para aprender a calar.
 
309. As proposições materializam os nossos juízos,
        encarnam-nos pelo intermédio da palavra escrita ou oral.
        Quando falamos ou escrevemos, tornamos público o que era apenas nosso.
 
310. Sentimos por vezes dificuldade em expressar-nos
        quando, por exemplo, uma ideia repentina irrompe em nós.
        Procuramos então o modo mais adequado de a transmitir fielmente aos outros.
 
311. Essa busca dos termos mais apropriados para comunicar o que pensamos
        indicia a anterioridade do pensar em relação ao acto de se exprimir.
        A proposição existe em função do juízo e não o contrário.
 
312. A verdade de um juízo resulta da sua plena conformidade com o real.
        Dessa condição fundamental e primeira, depende uma segunda:
        os atributos devem convir ao sujeito, harmonizar-se com ele.
 
313. A proposição afirmativa: “As amoras são frutos silvestres” é verdadeira
        porque o atributo ou predicado (frutos silvestres)
        convém ao sujeito (amoras).
 
314. Como é possível verificar essa concordância entre o atributo e o sujeito?
        O que nos permite atribuir uma certa qualidade (o predicado)
        a uma coisa qualquer (o sujeito da proposição)?
 
315. Resposta:confrontando a nossa afirmação com a realidade.
        Nunca nos anteponhamos às coisas. Antes de julgar, observemos.
 
316. No presente caso, essa conveniência assenta na experiência.
        Os sentidos confirmam que amoras e frutos silvestres
        têm a ver entre si numa óbvia relação de inclusão.
 
317. Quer queiramos, quer não, as coisas são o que são.
        Cabe-nos dizer o que elas são, abstendo-nos de lhes retirar
        ou de lhes acrescentar algo arbitrariamente em nossas representações.
 
318. Se, no exemplo apontado, substituíssemos o atributo “frutos silvestres”
        pelo de “frutos secos”, a proposição deixaria de imitar a realidade.
 
319. A proposição tornar-se-ia falsa, apesar de continuar afirmativa,
        pois o predicado deixaria de se coadunar com o sujeito.
        O atributo tem que se ajustar ao sujeito sempre.
 
320. Neste último caso, o juízo deverá passar a ser negativo
        para continuar a ser verdadeiro: “As amoras não são frutos secos".
 
321. Não é pelo facto de termos afirmado ou de termos negado seja o que for
        acerca de um objecto que este passa a ser como nós dissemos,
        mas é antes por ele na realidade ser isto ou aquilo
        que nos compete reconhecê-lo como tal.
 
322. Não nos foi dado decidir como as coisas são,
        mas podemos deturpar a sua correcta representação,
        relacionando indevidamente em nós conceitos incompatíveis.
 
323. O que a razão liga ou desliga, fá-lo por sua conta e risco.
        “Errare humanum est; perseverare diabolicum”. Errar é humano,
        mas obstinar-se no erro é diabólico. Assim, o aforismo medieval está completo.
 
324. O filósofo francês Bossuet (1627-1704) desabafa mesmo:
        “Tais-toi, raison imbécile” (cala-te, estulta razão).
 
325. As proposições podem portanto ser afirmativas ou negativas,
        e, em ambos os casos, verdadeiras ou falsas.
publicado por Marc Calicis às 21:38
link do post | favorito

Marc Calicis

Licenciado em Filosofia pela U.C.P.

Vila do Conde

Ano Lectivo de 2009 - 2010